O cardeal Cerejeira da Rússia

A mundovisão de Francisco e Kirill não tem nada de coincidente, apenas aproximada na linguagem das palavras mas ordenadas por interesses contraditórios. O Papa fiel depositário da tradição cristã parte na sua narrativa com as palavras de Jesus e o exemplo da primeira ceia de quinta feira; Kiril afirma a fé cristã como modelo de organização do Estado que escolhe a narrativa oficial e modela os comportamentos.

Mas onde é que já vimos isto?

No nosso país, vivemos ainda as consequência de postura idêntica tomada pelo cardeal Cerejeira, confessor oficial de Salazar que acautelava a mensagem “certa” nas altares paroquiais promovendo um distanciamento crítico de muitos crentes que acreditavam e desejavam a mudança de regime.

A posição eclesial de Cerejeira era um bálsamo para Salazar pois tratava de aliviar as consciências dos arautos do regime e pregava o modelo de comportamento correcto a uma população grandemente analfabeta e que nas igrejas – e à volta dela – procurava a (in)formação.

A mensagem de Jesus tinha um código de transmissão alinhado com a narrativa oficial, sempre acompanhada nas igrejas pelos homens de fato preto que também aos domingos trabalhavam para escutar aqueles padres que – agora como Francisco – sentiam que a fé que partilhavam se baseava na vida comum para ali encontrar sinais de esperança.

Mas que Esperança?

Sobretudo depois do eclodir da guerra nas ex-colónias portuguesas, centenas de padres católicos, conhecedores dos ventos que sopravam, sobretudo, de França e também do Brasil, agigantaram-se quase sózinhos para fundamentaram os movimentos de “Acção Católica” – e um novo país começou a nascer.

Em Portalegre apareceu um bispo de granito que entendeu que a Igreja que liderava tinha campo próprio de acção, mensagem original para proclamar e uma sociedade diferente para criar. Chegado ao Porto, Dom António Ferreira Gomes ganhou dimensão e manteve a palavra. Foi expulso do país para mais tarde regressar e apresentar aos fiéis da sua diocese um dos patrimónios mais ricos do pensamento da igreja portuguesa.

Hoje, na Rússia

Muitos anos depois, olhamos para Kirill e percebemos como foi grande o erro dos nossos senhores bispos – o alheamento à realidade social e comunitária dos crentes e o alinhamento com o poder, ainda por cima fechado aos ideias de uma sociedade aberta.

Semearam o anticlericalismo no povo para obter os benefícios do andor que lhes era oferecido. O poder ganhou, enquanto durou mas caiu. A Igreja perdeu e ainda hoje paga penosamente o custo deste alinhamento cego, sobretudo por não olhar para o que efectivamente interessa: o fundamental Jesus de Nazaré.

VEJAMOS o enquadramento do que se passa HOJE a propósito das justificações de Kirill

Embora a Rússia tenha tentado justificar o seu ataque à Ucrânia com queixas sobre a expansão da NATO para o leste, também afirmou que atores estrangeiros invadiram o seu território religioso na Ucrânia – mesmo alegando que os Estados Unidos ajudaram a instigar um cisma ortodoxo oriental lá.

O Patriarca de Moscovo Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, disse que tanto o Ocidente quanto um patriarca rival estavam “perseguindo o mesmo objetivo” de tentar enfraquecer a Rússia e “fazer dos povos irmãos – russos e ucranianos – inimigos”.

Embora dificilmente seja o único fator na guerra, a queixa religiosa não deve ser negligenciada, dizem os especialistas.

“Você não pode chamar isso de guerra religiosa, mas tem uma dimensão religiosa”, disse o reverendo Cyril Hovorun, padre ortodoxo, nativo da Ucrânia e professor de eclesiologia, relações internacionais e ecumenismo na University College Stockholm.

Kirill fez os seus comentários em resposta a uma carta do chefe interino do Conselho Mundial de Igrejas, que o pediu para “levantar sua voz” e mediar com as autoridades para parar a guerra na Ucrânia

Kirill respondeu que a guerra não era culpa das autoridades russas. Em vez disso, ele afirmou que as sementes do conflito foram semeadas por ameaças estrangeiras às suas fronteiras, tanto políticas quanto religiosas.
Ele citou o patriarca ecumênico de Constantinopla, que em 2019 reconheceu formalmente a independência da Igreja Ortodoxa da Ucrânia – num país onde o Patriarcado de Moscovo reivindica jurisdição. O patriarca ecumênico, radicado na Turquia, é considerado o “primeiro entre iguais” entre os patriarcas ortodoxos, mas, ao contrário de um papa, não tem autoridade além de seu próprio território.

Em janeiro, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, acusou os EUA de estarem “diretamente envolvidos na crise em curso na ortodoxia” e de terem “financiado o patriarca Bartolomeu de Constantinopla para que ele pudesse seguir uma política de divisão, inclusivé na Ucrânia”.

Ele não ofereceu evidências de tal suposta manipulação, embora autoridades dos EUA tenham falado em apoio ao direito dos ucranianos à autodeterminação religiosa.

A maioria dos russos e ucranianos são ortodoxos, mas a controvérsia vai além dos números.

O patriarca Kirill é um defensor de longa data do presidente russo Vladimir Putin. Ambos promoveram o conceito de um “mundo russo”, forjado num milênio de cultura cristã ortodoxa compartilhada na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.

Os ucranianos afirmaram que são um povo separado, embora relacionado aos russos. Mas no período que antecedeu a guerra, Putin menosprezou a Ucrânia moderna como uma invenção soviética ilegítima. Ele alegou que os ortodoxos ucranianos que permaneceram leais a Moscovo estavam sob ameaça.

 

Se tais alegações de líderes russos “têm credibilidade ou não aos olhos do mundo não é de importância primordial”, disse Catherine Wanner, professora de história, antropologia e estudos religiosos da Universidade Estadual da Pensilvânia, cuja pesquisa se concentra na região. “O público é seu próprio povo, o povo russo.”

As  origens das disputas

Nos seus primeiros séculos, os ortodoxos da área de Kiev estavam sob o Patriarcado Ecumênico. Mas em 1686, com a igreja de Constantinopla enfraquecida sob o domínio otomano, o patriarca ecumênico delegou ao agora independente patriarca de Moscovo a autoridade de ordenar o metropolita, ou bispo superior, de Kiev.

A Igreja Ortodoxa Russa diz que foi uma transferência permanente. O Patriarcado Ecumênico diz que foi temporário.

Hovorun disse que a história da igreja moderna desmente as alegações russas de que a Igreja Ortodoxa independente da Ucrânia é um projeto dos EUA. “A ideia de uma igreja independente tem quase 100 anos” na Ucrânia, disse Hovorun.

Ortodoxos ucranianos independentes organizados durante a breve independência da Ucrânia na década de 1920 e novamente após a independência pós-soviética na década de 1990. As duas principais igrejas separatistas fundiram-se e receberam a legitimidade há muito procurada quando o Patriarca Ecumênico Bartolomeu reconheceu a Igreja Ortodoxa da Ucrânia em 2019. Moscovo protestou ferozmente contra a medida.

“Até que esse passo fosse dado, Kirill e todos os outros sempre podiam se referir às várias igrejas ucranianas como cismáticas”, disse Wanner. “Esse foi o momento da história recente em que a rivalidade sobre a autoridade do Patriarcado de Moscovo e do Patriarcado Ecumênico veio à tona.”

A política desempenhou um papel no estabelecimento da nova igreja, disse Hovorun, mas “foi uma resposta à politização da igreja russa pelo Kremlin”.

Depois que a Rússia tomou a Crimeia em 2014 e começou a apoiar os separatistas no leste da Ucrânia, o então presidente ucraniano Petro Poroshenko defendeu o reconhecimento da igreja separatista, chamando-a de “independência final da Rússia”.

O Departamento de Estado dos EUA emitiu declarações de congratulações pelo estabelecimento da Igreja Ortodoxa da Ucrânia independente. Isso, mais as negociações em andamento com o Patriarca Ecumênico Bartholomew, que se reuniu com os principais dignitários dos EUA, alimentou as alegações russas de um papel dos EUA no cisma.

Mas Sam Brownback, que na época era o embaixador geral do Departamento de Estado dos EUA para a liberdade religiosa internacional, disse que os EUA estavam apoiando a autodeterminação ucraniana.

“Tivemos membros da igreja ucraniana e funcionários do governo ucraniano chegando e dizendo: ‘Queremos estabelecer nossa própria… igreja’”, disse ele em entrevista. “Dissemos: ‘Isso é bom para nós, acreditamos na sua própria autonomia para estruturar como achar melhor.’ Mas é uma decisão da igreja, não é uma decisão do governo dos Estados Unidos. Não dizemos ao Colégio dos Cardeais que papa escolher”.

O estabelecimento de uma nova igreja foi uma conquista marcante de Poroshenko, disse Wanner. “Dito isso, ele foi retumbantemente afastado do cargo, e entrou um judeu secular (o atual presidente Volodymyr Zelenskyy) que prometeu não se intrometer em assuntos religiosos”, disse ela.

Além disso, muitos ortodoxos ucranianos permaneceram no ramo leal ao Patriarcado de Moscovo. Mas essa lealdade agora está se desfazendo, com muitos clérigos cessando as orações por Kirill no seu culto público em resposta ao seu fracasso em condenar a invasão russa.

Desconsolo por declarações de Kirill

“Infelizmente, os pedidos de paz do Patriarca Kirill soam vazios quando ele abençoa a invasão de uma nação soberana em nome de uma noção imperialista de ‘Mundo Russo’ que está morta há muito tempo’”, disse o arcebispo Elpidophoros, da Arquidiocese Ortodoxa Grega da América, num comunicado.

Ele acrescentou que Bartolomeu “concedeu um caminho para os ortodoxos ucranianos que se baseavam na liberdade, e oramos para que quando a paz reinar novamente na sua terra, eles escolham livremente o seu próprio caminho a seguir”.

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Líderes das Igrejas Católica e Ortodoxa da Ucrânia conversaram por videoconferência na tarde desta quarta-feiraLíderes das Igrejas Católica e Ortodoxa da Ucrânia conversaram por videoconferência na tarde de quarta-feira 

Francisco com Kirill: Igreja deve usar a linguagem de Jesus, não da política

“A Igreja não deve usar a linguagem da política, mas a linguagem de Jesus”, concordou o Papa Francisco com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa. “Somos pastores do mesmo Povo Santo que crê em Deus, na Santíssima Trindade, na Santa Mãe de Deus: para isso devemos unir-nos no esforço de ajudar a paz, de ajudar os que sofrem, de buscar caminhos de paz, para deter o fogo”.

Respondendo às perguntas dos jornalistas, o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, afirmou o que segue:

“Posso confirmar que hoje, no início da tarde, ocorreu uma videoconferência entre o Papa Francisco e Sua Santidade Kirill, Patriarca de Moscou e de toda a Rússia. O encontro também contou com a presença de Sua Eminência o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e do metropolita Hilarion de Volokolamsk, chefe do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscovo”.

A conversa – explicou Bruni – centrou-se na guerra na Ucrânia e no papel dos cristãos e seus pastores em fazer todo o possível para que a paz prevalecesse. O Papa Francisco agradeceu ao Patriarca por este encontro, motivado pelo desejo de indicar, como pastores de seu povo, um caminho para a paz, para rezar pelo dom da paz, para que o fogo cesse.

“A Igreja – o Papa concordou com o Patriarca – não deve usar a linguagem da política, mas a linguagem de Jesus”. “Somos pastores do mesmo Povo Santo que crê em Deus, na Santíssima Trindade, na Santa Mãe de Deus: para isso devemos unir-nos no esforço de ajudar a paz, de ajudar os que sofrem, de buscar caminhos de paz, para deter o fogo”.

Ambos sublinharam a excepcional importância do processo de negociação em curso porque, disse o Papa: “Quem paga a conta da guerra é o povo, são os soldados russos e é o povo que é bombardeado e morre”.

“Como pastores – continuou o Santo Padre – temos o dever de estar próximos e ajudar todas as pessoas que sofrem com a guerra. Um tempo se falava também nas nossas Igrejas de guerra santa ou guerra justa, Hoje não se pode falar assim. Desenvolve-se a consciência cristã da importância da paz”.

E, concordando com o Patriarca sobre o quanto “as Igrejas são chamadas a contribuir para o fortalecimento da paz e da justiça – o Papa Francisco concluiu afirmando que “as guerras são sempre injustas. Porque quem paga é o povo de Deus, nosso coração não pode deixar de chorar diante das crianças, das mulheres mortas, de todas as vítimas da guerra. A guerra nunca é o caminho. O Espírito que nos une nos pede como pastores de ajudar os povos que sofrem com a guerra”.

Papa no Angelus: Deus é o Deus da paz e não da guerra

No Angelus do último domingo, o Papa Francisco fez um forte apelo pelo fim do conflito, afirmando que “Deus é apenas o Deus da paz, ele não é o Deus da guerra, e aqueles que apoiam a violência profanam o seu nome”:

Irmãos e irmãs, acabámos de rezar à Virgem Maria. Esta semana, a cidade que tem o seu nome, Mariupol, tornou-se uma cidade mártir da guerra devastadora que assola a Ucrânia. Perante a barbárie do assassínio de crianças, de inocentes e de civis indefesos, não há razões estratégicas que justifiquem: a única coisa a fazer é pôr fim à inaceitável agressão armada, antes que ela reduza as cidades a cemitérios. Com pesar no coração uno a minha voz à do povo que implora o fim da guerra. Em nome de Deus, que se ouçam os gritos de sofrimento e que cessem os bombardeamentos e ataques! Que se vise verdadeira e decididamente a negociação, e que os corredores humanitários sejam eficazes e seguros. Em nome de Deus, peço-vos: parai este massacre! Gostaria, uma vez mais, de exortar ao acolhimento dos muitos refugiados, nos quais Cristo está presente, e agradecer pela grande rede de solidariedade que se formou. Peço a todas as comunidades diocesanas e religiosas que aumentem os momentos de oração pela paz. Deus é apenas o Deus da paz, ele não é o Deus da guerra, e aqueles que apoiam a violência profanam o seu nome. Agora oremos em silêncio por quantos sofrem e para que Deus converta os corações a uma firme vontade de paz.

Em 12 de fevereiro de 2016, antes da chegada no México, o Papa Francisco teve um histórico encontro com o Patriarca Kirill no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, oportunidade em que foi assinada uma declaração conjunta. Um dos tópicos fazia referência justamente ao conflito em andamento na Ucrânia:

Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações a gente pacífica e lançou a sociedade numa grave crise económica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo. Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canônicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

A declação também faz uma exortação:

Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente, ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não permita uma nova guerra mundial. Para que a paz seja duradoura e esperançosa, são necessários esforços específicos tendentes a redescobrir os valores comuns que nos unem, fundados no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.Líderes das Igrejas Católica e Ortodoxa da Ucrânia conversaram por videoconferência na tarde desta quarta-feira 

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Por Arnaldo Meireles, com Vatican News

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