O festim das vacinas, o senhor Cunha e os interesses profissionais

Depois de um ano em que aspiramos pelo aparecimento da vacina anti-covid, conhecemos as condições que regulam a sua aplicação – nesta primeira fase tivemos a surpresa do incumprimento na entrega da totalidade da encomenda, e conhecemos a regra base para a sua distribuição: pessoas acima de um determinado escalão etário e os profissionais directamente ligados ao combate à pandemia.

Num país civilizado como o nosso, vacinar pessoas tornou-se habitual, existem mesmo planos nacionais de vacinação, e não se conhece problema nenhum na aplicação desta metodologia. O sistema de saúde define as prioridades, aplica-as comunicando a cada utente a data da vacinação, confirma com o mesmo a sua disponibilidade, e, em caso de indisponibilidade, comunica a vaga a doentes que estão em lista de espera.

A vacina anti-covid continua a chegar a conta-gotas, mesmo tendo sido garantida pelo Comunidade Europeia, e o nosso país talvez consiga vacinar toda a população até dezembro deste ano. Um prazo longo que, por ser longo, garante a continuidade da pandemia por mais tempo. Estamos tramados com o covid e com os prazos.

Como se isto não chegasse, a entrega das primeiras vacinas é apresentada como um festim, não se coibindo os nossos principais órgãos de soberania – governo e PR -, de tornar o acto numa comunicação de marketing para eleitor/sofredor contemplar.

No mesmo local, Belém e São Bento, noutras circunstânicas e noutro regime, também as organizações corporativas se deslocavam aí, de chapéu na mão, para tecer loas ao senhor presidente do Governo e proclamar a normalidade do país especializado em dar novos mundos ao mundo.

Acontece que a realidade social, neste novo século e nesta democracia, exige de todos e cada um uma atitude discreta na condução dos destinos da Nação, onde os interesses corporativos sejam atenuados para que seja evidente a defesa do interesse público.

O senhor Cunha

Todos o conhecemos, a lei e os regulamentos não são para ele, ajuda os vizinhos e amigos a chegar onde interessa, tem o mapa de Portugal desenhado nas mãos, e o telefone de quem decide. Além disso tem uma capacidade inata para ler regulamentos e esclarecer os amigos e familiares como se chega lá. É estrutural à nossa democracia e há quem diga que é uma instituição no nosso país.

Encontramos o senhor Cunha nas nossas instituições de saúde, nas de solidariedade social e no Governo (aqui assessorado por grupos parlamentares e comissões políticas). Tem uma idade avançada e uma saúde de ferro.

Informamos que conhecê-lo dá jeito apesar de na estrutura do código legal se estabelecer que ele não existe. Também nunca ninguém viu o ar que respira e afinal ele garante que ainda cá estejamos disponíveis para a vacina, quando chegar. Mas já sabe: se o sistema falhar e onde for preciso há sempre esta possibilidade de êxito que ao contrário do Poder não faz comícios. É discreto, e, neste país, essencial – como a vacina.

Os interesses profissionais

Diz-nos o senhor Cunha que este país não será o mesmo no pós-pandemia. Algumas ordens profissionais sairão reforçadas, interesses financeiros com campo de acção alargado, e horizonte da decisão política mais disperso. Interesses que lutam encarniçadamente pelo controlo do sector social e solidário associados a interesses financeiros obscuros, disfarçados de altruístas.

E o senhor Cunha diz que eles vão ficar com um poder enorme, contra a desvalorização dos dirigentes sociais que verão as organizações que dirigem a manterem a sua resistência, mas a sofrerem baixas no campo de batalha.

Num ambiente de desvalorização, lembra-nos o senhor Cunha o facto do senhor Presidente da República ter relegado os dirigentes sociais para uma figura secundária do gabinete da Casa Civil quando estes pretenderam manifestar-lhe as suas preocupações perante o cenário dantesco que estão a viver, todos os dias.

A secundarização do papel dos dirigentes no combate à pandemia, e a desmotivação dos seus generais não agura nada de bom quando é necessário manter o barco à tona em tempo de tempestade.

As instituições de solidariedade – como hoje percebemos que sem elas o nosso país seria ingerível – terão de redefinir o rumo, para responder à calamidade social que elas conhecem – não obstante os esforços de uns para denegrir o seu papel, com especial destaque para algumas ordens profissionais, muito bem secundadas por alguns alinhados órgãos de comunicação social.

Disponíveis para enfrentar os novos desafios que vamos ter – o combate às novas pobrezas que medram e a resistência aos apetites, financeiros e profissionais, que esperam como uma águia a momento do ataque final – os dirigentes sociais manter-se-ão vigilantes e disponíveis, como sempre, para combater o bom combate da sua autonomia institucional no serviço voluntário à sua comunidade.

Alfredo Cardoso, presidente da Associação Nacional dos Dirigentes Sociais e Arnaldo Meireles, director de Sociedade Justa

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