Velhice – o nosso futuro após pandemia

A Pontifícia Academia para a Vida divulgou no passado dia 09 um documento intitulado: “Velhice: nosso futuro. A condição do idoso após a pandemia”.

«Precisamos, lê-se no documento, de uma nova visão, um novo paradigma que permita à sociedade cuidar dos idosos».

Espero que o texto, em português de Portugal, seja amplamente divulgado e refletido. Nele se diz, insistentemente, que o lugar dos idosos é a família.

Transcrevo alguns dos parágrafos principais.

1. «Ser idoso é um presente de Deus e um enorme recurso, uma conquista a ser salvaguardada com cuidado, mesmo quando a doença se torna incapacitante e surge a necessidade de cuidados integrados e de alta qualidade. E é inegável que a pandemia reforçou em nós toda a consciência de que a riqueza dos anos é um tesouro a ser valorizado e protegido.

Aprender a “honrar” os idosos é crucial para o futuro das nossas sociedades e, em última instância, para o nosso futuro».

«Há na Lei de Deus um mandamento muito bonito. Bonito porque corresponde à verdade, capaz de gerar uma profunda reflexão sobre o sentido da nossa vida: “honrar pai e mãe”.

«Honra em hebraico significa “peso”, valor; honrar significa reconhecer o valor de uma presença: a daqueles que nos geraram para a vida e para a fé».

2. «Isolar os idosos e abandoná-los aos outros sem acompanhamento adequado e carinhoso da família mutila e empobrece a própria família. Além disso, acaba por privar os jovens do contacto necessário com as suas raízes e com uma sabedoria que os jovens, só, não conseguem alcançar.

A institucionalização dos idosos, especialmente os mais vulneráveis e solitários, proposta como a única solução possível para cuidar deles, em muitos contextos sociais revela falta de atenção e sensibilidade para com os mais fracos, a quem seria bastante necessário usar meios e financiamentos para garantir o melhor cuidado possível para aqueles que mais precisam, num ambiente mais familiar».

3. «A presença (dos idosos na família) é um grande recurso. Basta pensar no papel decisivo que desempenharam na preservação e transmissão da fé aos jovens em países sob regimes ateus e autoritários. E no que muitos avós continuam a fazer para passar a fé aos netos».

«Uma sociedade capaz de aceitar a fraqueza dos idosos é capaz de oferecer esperança a todos para o futuro».

«Tirar o direito à vida daqueles que são frágeis significa roubar esperança, especialmente dos jovens».

«Descartar os idosos – mesmo com a linguagem – é um problema sério para todos. Implica uma mensagem clara de exclusão, que é a base de tanta não-receção: da pessoa concebida à pessoa com deficiência, do emigrante ao que vive na rua».

4. «Há situações em que a casa não é suficiente ou adequada (para a presença dos idosos). Nesses casos é necessário não ser irreprimido por uma “cultura de desperdício”, que se pode manifestar na preguiça e na falta de criatividade na busca de soluções eficazes quando a velhice também significa falta de autonomia.

Pode ser necessário «prestar especial atenção à habitação para se adaptar às necessidades dos idosos: a presença de barreiras arquitetónicas ou a inadequação das casas de banho, a falta de aquecimento».

«O atendimento domiciliar deve ser integrado, com possibilidade de atendimento médico domiciliar e distribuição adequada dos serviços no território».

5. «Em alguns contextos sociais pobres a solução institucional pode ser uma resposta concreta à falta de um lar próprio. E se algumas pessoas mais velhas escolhem mudar-se para asilos para encontrar companhia, uma vez que são deixadas em paz, outras fazem-no porque a cultura dominante as força a sentirem-se um fardo e um incómodo para os filhos ou família».

«Ao longo dos anos, no entanto, as regulamentações exigiram uma redução do tamanho das grandes estruturas residenciais, substituindo-as por módulos menores que são mais funcionais às necessidades dos hóspedes».

Texto – Monsenhor Silva Araújo, ex-director de Diário do Minho

Nota – texto e foto  publicados com autorização do autor e de Diário do Minho

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1 Comment

  1. Pois sim! Dito desta forma tudo fica mentalmente e teoricamente arrumado no sentido da orientação que nos levaria ao caminho da solução. Mas…a vida prática dos Pais, Filhos, e assistência/tecnica social, face ao que a sociedade dos poderes tem desenvolvido, não permite que se permaneça unicamente nas boas intenções.

    No sentido de “mecanizar ” as mentalidades, tornam-se as questões morais/eticas sem valores de referencia. A engrenagem poderosa do consumo e da ganância fazem parte dos programas educacionais , das exigências e valores contemporâneos, onde pais e filhos, aliás as familias, estão completamente integrados, bebem diariamente na fonte que jorra as regras sociais. O estereotipo social foi criado e desenvolvido ao longo dos tempos. Ninguém pode pensar que os volores assentes neste modelo social mudem.

    Sem mudança radical educacional e ensinamento, não haverá boas praticas. Importa contrariar os hábitos instalados . Não são só as familias que têm culpa de abandonarem os seus velhos. É sobretudo a grande redoma social em que as familias absorvem a inspiração dos valores da existência humana. Uma falta, marcada por vários responsáveis…
    Os Velhos são uns fardos para os filhos. As pessoas têm pouca motivação no sentido do dever familiar e dos reais afetos. Amam sim! Há maneira do mundo que os rodeia e encaminha…
    Aprenderam a viver na hipocrisia inconsciente aliás consciência e auto avaliação pouco ou nada se fala, muito menos se pratica. Os olhares para os velhos não são outros, que não sejam aqueles que se aprendeu ao longo da vida. Resumindo. Não se defendem valores. Defende- se ascenção social, sucesso, o que dá visibilidade.

    Os valores sociais focam-se no acessório na aparência e pouco ou nada no essencial. Por isso…Institucionalizar os Velhos é uma solução. Sendo que as instituições não estão de modo algum à altura de respeitar o direito à singularidade do individuo. A única solução da velhice condigna assenta na mudança institucional. Entretempo tempo quem sabe, se vamos aprendendo a ser gente mais sensata.

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