A pimenta – o começo da crise crónica de Portugal?

A CULPA, VAI-SE A VER, É DA PIMENTA. E se não for, será de outra coisa qualquer que ainda não descobrimos.
Isto vem a propósito da crise portuguesa, que “é uma espécie de Diabetes mellitus que ainda não foi devidamente diagnosticada nem medicada/…/ Os problemas financeiros de Portugal são antigos/…/ D. João I/…/ já era muito habilidoso em questões de dinheiro/…/ fez umas magias engraçadas com o dinheiro.
Assim: um real passou a valer dezanove vezes menos do que valia no tempo do rei Fernando, o custo de vida aumentou cinco vezes, mas João I evitou a bancarrota. Como? Conquistou Ceuta em 1415, saqueou o Norte de África, ainda conseguiu financiar os descobrimentos”.
“Em 1544, faltavam dez anos para Sebastião nascer, a bancarrota passou à tangente./…/ O rei da altura, João III, também evitou a bancarrota. Como? Renovou letras de empréstimos, somou juros, ganhou tempo”.
Era João III, o nosso Rei-Pimenta, avô do futuro Sebastião. A pimenta é aquela coisa que faz espirrar, mas sabe Deus o que espirrámos à custa dela, acho que ainda espirramos.
João III, Deus lhe tenha a alma em descanso, tem muito a ver com a crise crónica de Portugal, isto porque os portugueses, saudosistas e bem comportados, pouco respiram, mas suspiram muito. E entre suspiros, lá vai pimenta. Morreu em 1555, a sua viúva, Catarina de Áustria, estava destinada a espirrar.
“Catarina soube gerir a crise, mas não podia fazer milagres/…/ acalmou a boca aos credores com 900.000 cruzados.”. Voltou a espirrar em 1580, e dessa vez a constipação era séria. Lá chegou a bancarrota de 1605, da qual pouco falamos. Portugal tem o recorde de oito bancarrotas.”.
O século XVII português abriu com muitas dificuldades”. Assim continua.
Afinal era um país cheio de gente improdutiva, ainda que, quanto a isso, estivesse em pé de igualdade com a França”, mas desgraçadamente não teve uma Revolução Francesa. A única classe social que trabalhava era o povo, mas não mexia no dinheiro.
“O século XVI português tanto conheceu o auge e a queda do império, como assistiu ao drama dos miseráveis”. Hoje não há império para ganhar ou perder, mas continua a corrupção, a quebra de moeda, o drama dos miseráveis. Continuamos a espirrar, talvez seja da pimenta, do ganhar tempo em juros, de calar uma boca aqui, abrir outra ali. E o povo, trabalhando, sem mexer no dinheiro, com o custo de vida cada vez mais alto, mas não lhe passando pela cabeça uma “Revolução Francesa”.
Não me acusem de revolucionária, isto foi um bocado de pimenta que me chegou ao nariz.
Fonte: “Idade Moderna (Des)Concerto do Mundo” (Leonor Fernandes, 2016).
Leonor Fernandes, autora Grupo Privado Sociedade Justa

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