Longevidade e abandono

Segundo dados do INE, o ano passado, em Portugal, havia cerca de 630 000 indivíduos octogenários e nonagenários e os centenários eram já mais de 4 000.

Portugal ocupa, assim, a 4ª. Posição entre os Países da UE, com mais pessoas na chamada 4ª. Idade, antecedido apenas pela Itália, a Grécia e a Espanha. Poucos Países registam este envelhecimento que parece ter uma maior incidência no Sul da Europa.

Para melhor compreendermos esta realidade e a pressão que a mesma exerce sobre os serviços sociais, saúde e famílias convém recordar que, em 1974, quando Portugal saiu da ditadura, a esperança média de vida situava-se nos 68 anos e, segundo dados actuais, está agora nos 82 anos. Houve, pois, neste período da democracia, um aumento de 14 anos de esperança média de vida.

Numa população já de si envelhecida quer pela elevada taxa de idosos e pela baixa natalidade, esta 4ª, idade traz todo um conjunto de premências para as quais não se estava preparado.

O apoio familiar aos mais velhos sofre vários reveses que começa logo por os indivíduos da dita 4ª. idade terem eles filhos já idosos o que levaria a que o apoio, no seio familiar, a um idoso fosse feito por outro idoso também a precisar de apoio.

Além disso, o êxodo das populações do interior do País e a pressão humana sobre o litoral, veio trazer, além do desenraizamento que os mais velhos sentem sobremaneira, condições de vida, incertas e precárias, que dificultam o enquadramento dos idosos e, sobretudo, uma assistência condigna. Os filhos experimentam dificuldades várias que vão desde a habitação horizontal com espaços exíguos, ao trabalho precário, às baixas remunerações ou à dilatação dos tempos que estão fora de casa quer pelo tempo em deslocações quer por trabalhos com horários rotativos.

Tudo isto tem contribuído decisivamente para que se tenha verificado como que um desligar afectivo.

Porém, o problema do abandono dos mais idosos não pode ser analisado sob um prisma simplista. Como em tudo na vida as análises têm de ser feitas a montante e a jusante das situações para que melhor se compreenda com o que se lida e, assim, poder haver respostas adequadas.

É por demais evidente que nada justifica que se abandonem pais idosos e que, quem o faz, está despido dos valores humanos que devem nortear a sua conduta. E isto porque, ao longo da sua vida, esses valores não foram transmitidos eficazmente tendo a família, a escola e o trabalho um papel decisivo na sua formação. Os filhos que abandonam os pais não nasceram “malandros”. Muitos deles, provavelmente, pelos dados conhecidos de maus tratos e negligência na infância, foram também objecto de tratamento cruel e negligente por parte de muitos pais que, no fim da vida, se queixam do seu abandono.

Porém nunca nos deveremos desviar do princípio de que todo o ser humano merece respeito e dignidade sejam quais forem os erros cometidos e que não é no fim da vida, já desvalidos, que se lhes deve impor castigos e reclassificações.

De tudo o que atrás foi dito ressalta a importância da sociedade dispor de uma estrutura solidária e conhecedora das situações no terreno para fazer face à nivelação da dignidade humana quando a mesma se encontra ameaçada. A Economia Social é, a meu ver, a resposta adequada. Não numa perspectiva de assistencialismo puro, mas em complementaridade e articulação com um “Estado Social” que pela sua abrangência e diversidade não tem valências suficientes para estar no local a tempo e horas e com a profundidade que estas situações requerem.

 

Lídia Soares, texto publicado originalmente no facebook/grupo privado Sociedade Justa

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