S. Bento da Porta Aberta: a solidariedade entre ricos

A crise social e económica que muitos padecem na própria carne e está a hipotecar o presente e o futuro de tantas crianças, adolescentes e inteiras famílias votadas ao abandono e à exclusão, não tolera que privilegiemos os interesses de sacristia à custa do bem comum. Não sei quem escreveu isto. Não me lembrava. Tinha uma vaga ideia. E não é que foi o meu Papinha, o Francisco? O mesmo que face à falta de apoio com qualidade aos idosos, nos falou da sua betonização.

Mas recordo que, no dia 22 de Fevereiro, foi efectuada uma doação oficial de uma carrinha do Sporting Clube de Braga à Irmandade de São Bento da Porta Aberta, na Carclasse, em Nogueira, responsável pela sua revisão e decoração.

Assegura o primeiro interveniente que, devido à situação epidemiológica atual, o Sporting Clube de Braga foi obrigado a rever grande parte da sua frota de transporte.

O Presidente do clube, António Salvador, argumenta que,  “em vez de colocarmos estes carros à troca, decidimos doá-los a instituições de solidariedade e de cariz social”.

António Salvador afirma ser peremptório olhar “o SC Braga como um clube que tem grande responsabilidade social, conhecido nacional e internacionalmente. Por isso, estamos cada vez mais próximos das necessidades sociais e estaremos sempre presentes quando necessário”.

O segundo interveniente, a Irmandade de São Bento da Porta Aberta (ISBPA) é uma das instituições religiosas mais ricas do país — há quem afirme que a seguir a Fátima — é a maior e acolheu esta oferta com muita gratidão.

Sabe-se que a grande força dos devotos — como eu — vai a pé ao São Bento da Porta Aberta, mas o seu presidente, o Cónego Roberto Rosmaninho Mariz, acredita que esta doação pode ser vista como um incentivo a peregrinar a São Bento da Porta Aberta.

O terceiro interveniente, o omnipresente Arcebispo Primaz de Braga, chega ao ponto de destacar que “esta pandemia manifestou que esta sociedade é uma sociedade desigual, com muitas necessidades concretas e que teremos de dar as mãos para que a nossa sociedade seja mais humana, mais justa e mais fraterna.”

A Irmandade de São Bento da Porta Aberta destaca o seu agradecimento ao SC Braga. pela oferta generosa, e à parceria garantida pela Carclasse, na pessoa do Sr. Domingos Névoa, natural de Rio Caldo, onde se situa o santuário. É verdade inquestionável que este pode fazer o que quer com o seu dinheiro.

O Sporting Clube de Braga, no dia anterior tinha visto ser aprovado um subsídio de 350 mil euros, pela Câmara Municipal de Braga. É o mesmo clube que detém a maioria de uma SAD, Sociedade Anónima Desportiva (SAD) do Sporting de Braga, e apresentou um resultado líquido positivo relativo à época 2019/20 de 22 milhões de euros (ME), o maior de sempre da sociedade anónima desportiva minhota (cf. https://www.publico.pt/2020/10/08/desporto/noticia/sad-sp-braga-lucro-recorde-22-milhoes-euros-201920-1934501). O Sp. Braga regista ainda um EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de 30,2 ME (contra 13,1 ME na temporada anterior).

A SAD bracarense gerou resultados que permitiram atingir 41 ME de capitais próprios e uma autonomia financeira superior a 41%, “rácio manifestamente positivo no sector de actividade e ímpar no panorama nacional”.

Há poucos anos, o presidente da autarquia, Ricardo Rio, frisou a contribuição da câmara municipal (doação de terrenos para a primeira fase e concessão por 75 anos na segunda) “para que, ao fim de 100 anos, o Sporting de Braga tenha o seu primeiro património físico próprio” (cf. https://observador.pt/2020/07/17/cidade-desportiva-do-sporting-de-braga-tera-custo-total-de-335-milhoes-de-euros/).

Estes são os factos. Como diria o meu mestre, Mons. Silva Araújo, são sagrados. Agora, vamos à opinião que é livre e a ela tenho direito.

Deve um clube que recebe dinheiros dos impostos dos bracarenses ter como primeira opção solidária uma das Irmandades mais ricas do país fora do concelho de Braga?

Deve um clube com lucros milionários — em euros — esquecer-se. Nesta primeira opção solidária de clubes bracarenses que militam em escalões inferiores e em outras modalidades — com tantos sucessos nacionais, como é o ABC, Hóquei Clube de Braga? E mais de uma centena de outros que movimentam mais de onze mil crianças, adolescentes e jovens (cf. Carta Desportiva de Braga, pp. 142 e ss.)

Deve um clube ignorar, em primeiro lugar,  tantas colectividades culturais, desportivas e sociais do concelho de Braga que vivem na penúria por causa da pandemia, também, e recebem muito menos do tesouro da Câmara Municipal de Braga?

O concelho de Braga, ao nível do associativismo desportivo, carateriza-se de uma forma global, pela existência de 11.282 atletas distribuídos por 52 modalidades e 132 Clubes/Associações Desportivas com  237 equipas (INE, Census 2011 e Carta desportiva de Braga).

Todos sabemos quantas colectividades nem carros têm e os atletas são levados para as competições nas viaturas dos seus dirigentes que abnegadamente os servem e mantêm de pé num esforço titânico de educação desportiva de mais de onze milhares de crianças, adolescentes e jovens (cf. Carta Desportiva de Braga).

Mais. Quantos associados terá o Sporting de Braga e Terras de Bouro, comparando com o concelho de Braga?

Que razões levaram o Sporting de Braga e o seu presidente a fazerem esta escolha? Ou foi Domingos Névoa quem decidiu seleccionar esta Irmandade e o senhor Arcebispo aplaude, como se vê na foto publicada no Site da Irmandade de S. Bento da Porta Aberta? (cf. https://www.sbento.pt/pt/calendario-liturgico-pastoral-2017-2018__trashed-2-2-2-3/)

António Salvador afirma que o Sporting de Braga foi obrigado a rever grande parte da sua frota de transporte por causa da pandemia. Aguardamos, agora,  a quem vai ser entregue o restante da “sua frota”. É bom que escolha instituições pobres de Braga — desportivas ou não — para apagarmos este comentário.

Este gesto é também uma ofensa ao esforço gigantesco do Município de Braga que possuía (já em 2011) 872 infraestruturas desportivas, que perfazem um total de 733.932,20 metros quadrados de área desportiva útil, superior à media europeia (cf. Sameiro Araújo, in Carta Desportiva de Braga, p.150) para que as colectividades tivessem as condições mínimas para a prática desportiva.

Não é em jeito de brincadeira, como o Cónego Rosmaninho Mariz, mas, sinceramente, desejo que o Sporting de Braga seja “campeão nacional”, mas os seus dirigentes têm de perceber uma coisa: «a mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. (…) O individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum.”

O presidente do Sporting de Braga não é obrigado a perceber, mas o senhor Arcebispo podia ter-lhe explicado quem escreveu isto. O Cónego Rosmaninho Mariz sabe responder: o Papa Francisco, in Fratelli Tutti. n.º 103 a 105).Assim não. Isto é solidariedade de ricos, entre  poderosos. É a solidariedade betonizada.

Costa Guimarães, jornalista – texto original editado em www.regiãodonorte.pt

 

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