Subsídio de Risco para os trabalhadores das IPSS

Temos de saber interpretar os sinais dos tempos e adaptar as decisões políticas às necessidades prementes das pessoas. O sector social reage à tempestade da Covid com esforço e dedicação de sempre, mas o prolongamento da pandemia exige cada vez mais de quem está na linha da frente: trabalhadores e voluntários das IPSS merecem que lhes seja atribuído um subsídio de risco por desgaste rápido profissional.

Em tempo de guerra não se limpam armas, mas porque nem todos estão na linha da frente é preciso dedicar atenção ao exército de trabalhadores e voluntários que de forma ininterrupta e com uma dedicação extrema estão na linha da frente e enfrentam cargas excepcionais de stress, acrescidas das incompreensões sentidas junto dos familiares dos utentes que se lhes dirigem com a “autoridade” de um fiscal para “saberem” da situação do utente, tantas vezes dispensado precocemente do agregado familiar.

Trata-se de uma situação nova que obrigou o governo a atribuir às IPSS um complemento de cerca de 5% para fazer frente ao acréscimo de despesas de funcionamento que o Covid exige para ser combatido.

Acontece que o acrescento de actividade é suportado pelos trabalhadores e voluntários das instituições que ao fim de oito meses consecutivos não largam a linha da frente: exaustos, longe da sua rectaguarda familiar, com dias seguidos de trabalho, com substituição de colegas entretanto caídos em combate e em situação de quarentena.

Este sofrimento é sentido em silêncio porque os trabalhadores e voluntários das IPSS  não promovem manifestações, as televisões só estão disponíveis para os casos da desgraça, e até os sindicatos ficam tolhidos num silêncio que não se compreende – habituados que estão a “bater” nas instituições.

Mas é preciso fazer alguma coisa. Começar por reagir, pensando como se podem proteger estes trabalhadores e voluntários de maneira que sejam confortados pelos sacrifícios que fazem em detrimento do seu legítimo direito ao descanso e do necessário apoio às suas famílias, – que não estão a dar – e onde se nota a ausência, sobretudo naqueles núcleos familiares com crianças.

Eles estão exaustos e mantêm-se anónimos. Mas têm um crédito sobre a sociedade que servem de forma abnegada. E por isso precisam de uma resposta concreta de quem manda neste país – O Governo, sim, este que temos e neste tempo.

Compreende-se que na área da saúde (e até na área do lixo) o Governo tenha admitido atribuir aos profissionais para este ano uma compensação chamada “direito ao suplemento de insalubridade, penosidade e risco”, para profissões de desgaste rápido.

Aqui está parte da solução. Por semelhança, a dedicação destes trabalhadores e voluntários merecem (e poderiam exigir) têm de ser considerados pelo executivo e ser integrados por esta medida.

Não venham fazer discursos de agradecimento em tempo de pré-campanha eleitoral. Ao Governo e Assembleia da República pede-se atenção e justiça a favor de quem mantém o país a funcionar acolhendo diariamente os mais vulneráveis, para que os portugueses activos se empenhem no desenvolvimento da economia e da sociedade.

Resolvam o problema que existe. É olhar para ele, verificá-lo e agir. Porque palmas não pagam pão. E já agora. Provem o sentido de oportunidade. O direito ao suplemento de penosidade e risco está legislado há vinte anos! Falta só a respectiva regulamentação.

Em próximo Orçamento de Estado teremos de garantir a dotação necessária para regulamentar este direito/necessidade. Por justiça.

Texto: director@sociedadejusta.pt

 

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7 Comments

  1. Arnaldo Meireles este magnífico texto, tão tocante, tem que chegar a vários sítios. Vivemos tempos difíceis em que, por um lado, as pessoas mostram o pior de si mesmas e, por outro, coexistem com aqueles que dão tudo e em que ninguém repara. Várias vezes tenho referido a situação de injustiça moral quando esquecemos, no nosso constante apontar apontar o dedo, aqueles que são exemplos de altruísmo e que deveriam ser mostrados para os olharmos como referência e acreditarmos que na humanidade, mesmo nos piores momentos, nem tudo está perdido. Deixo aqui a minha solidariedade a todos aqueles que diariamente lutam e se entregam para que os outros possam ter alguma qualidade de vida. Mas isso não basta. É preciso que todos desçamos do nosso ego tão redutor quanto vazio, e mostremos a todos estas pessoas quanto as admiramos e estamos com elas. E que cada um pense o que pode fazer para as ajudar.

  2. Obrigado pelo comentário. O texto relata a minha experiência e sentimento ao lidar com IPSS desde 1984. Como jornalista aprendi muito com esta gente que me ensinou a ler a realidade social portuguesa.

  3. Apenas espero que a nosso trabalho seja finalmente reconhecido e valorizado…fazer turnos,trabalhar fins de semana, época natalícia,fim de ano….feriados…e mais …ser mãe,psicóloga,cozinheira e etc etc etc e ter como ordenado mais 20 ou 30 € que o ordenado mínimo é muito desmotivante!!! Quero ainda dizer que amo o que faço,gosto das pessoas especiais que ajudo a ter mais alguma qualidade de vida, são minha 2a família…tudo dito!!!

  4. Realmente, nem nós, os que diariamente estamos presentes tentando assegurar as condições para que tudo continue a funcionar, entendemos o nosso silêncio. O nosso pensamento está focado, apenas, para que cada dia seja de ” Vitória” e o amanhã inicie sereno. Talvez porque ao longo dos anos fomos, sistematicamente, habituados a ser mal tratados, olhados até com algum desprezo, por aqueles que ignorando se acham os donos da verdade é detentores de todas as respostas. Sinto que ao fim de 27 anos na profissão, que sempre dignifiquei, à semelhança de centenas de colegas, não espero nada, mas gostaria de sentir, pelo menos, um pouco mais de respeito.

  5. Competirá aos dirigentes e representantes de uniões e sindicatos que se sentam à mesa das negociações lutar pela preconização deste direito. No entanto, também as Instituições podem e devem investir nessa matéria. Na Instituição que presido atribuímos desde o dia 1 de novembro um subsídio de risco covid tolerância zero no valor de 150,00€ por todos os trabalhadores. Um esforço financeiro grande que visa “galardoar” o esforço de todos os que cumprem as normas de segurança e proteção a favor dos idosos. Premeia-se o esforço e salvaguarda-se a prevenção, a melhor arma de defesa a favor dos nossos idosos. Cumprimentos, e parabéns pelo texto.

    1. Parabens pelo texto. Alguem que luta por nos. Na minha instituição tinhamos turnos rotativos e foi -nos retirado o subsídio de turno simplesmente porque não pode haver contacto entre colegas e so nos pagam algumas horas para fazer acerto destas. Não e justo termos mais trabalho, responsabilidade e psicologicamente estamos esgotadas e ainda acham que não temos direito.

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