Medo do Covid – uma inevitabilidade ou uma escolha?

Vivemos tempos de grandes desafios! Vai-se ouvindo dizer que a vida é feita de escolhas e a qualidade da mesma, é fruto dessas escolhas. Será que a questão da pandemia é uma questão de escolha? Ou por outra, temos ou não o poder de escolher a forma como a vivemos ou interpretamos?

Na verdade, tal como todas as circunstâncias factuais negativas, não escolhemos ficar infetados. Queremos acreditar, que ninguém faz questão de se infetar e que nenhuma pessoa, em consciência, deseja infetar alguém! No entanto, a forma como lidamos com a possibilidade de sermos infetados e/ou infetarmos alguém, é efetivamente, uma questão que devemos refletir, como mero exercício, para a eventualidade de vir a acontecer. Porque é neste campo, que entra a faculdade de escolher viver ou não, entre o medo e a culpa, respetivamente.

Perante tais tribulações a que nos deparamos, urge refletir com base nas seguintes perguntas: qual a origem destes sentimentos? O que os alimenta? De que forma podemos lidar com eles? Que escolhas podemos tomar a priori para os atenuar?

O medo e a culpa, são sentimentos destabilizadores do discernimento humano que, se forem erradamente significados, com narrativas intrapessoais e interpessoais negativas, podem ser catastróficos para a nossa sanidade mental, emocional, espiritual e física, impedindo-nos de ter a coragem necessária para agir e avançar para caminhos com significados mais suportáveis. Por isso, independentemente do grau de gravidade da ‘catástrofe’ que está a acontecer ou poderá vir a acontecer, será que vale a pena viver num estado de pânico que nos impede, inclusive de viver?

O adágio da sabedoria popular diz-nos que “o que não tem remédio, remediado está!”. O mesmo povo, também diz mediante a adversidade, que “a coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de avançar, apesar do medo”; e a mais desapegada de todas: “seja o que Deus quiser!”. Assim o queiramos, pois podemos não querer a intromissão deste, dependendo da crença de cada um. No entanto, não deixa de ser uma escolha…

Em relação às narrativas, que por um lado vamos alimentando e por outro, vamo-nos deixando alimentar, recorrendo à fonte das fontes, em Sabedoria de Salomão, podemos ler que “a maldade é cobarde e condena-se a si mesma; os maus, cheios de remorsos, imaginam sempre que vai acontecer o pior, afinal de contas, o medo consiste em rejeitar a ajuda que a razão pode dar. Quanto mais deixamos de aproveitar essa ajuda, mais terrível nos parece a causa desconhecida do nosso sofrimento”. Por outro lado, a tradição judaica, diz-nos que “o medo da desgraça é bem pior que a própria desgraça”.

Em relação à culpa, é de facto complicado, por se tratar de um sentimento que necessita de uma terapia ainda mais incidente e por norma, de longo prazo porque, a culpa para a pessoa humilde e conscienciosa, pode tornar-se uma barreira à significação da necessária desculpa e/ou não culpa. Ela vive em comunhão com um ‘impostor’ (imaginário) que a convence permanentemente de que é mesmo responsável pelo acontecimento! Para a pessoa assolada com este sentimento, a culpa será sempre da própria culpa! Por este facto, separar o ‘sentimento‘ de ‘interpretações suicidas’ da alma, é fundamental, para que os sintomas sejam simplesmente, de tristeza (apenas, sentir-se triste) mas,  despidos de culpa e auto-comiseração, evitando chegar ao ponto de ter vergonha de si própria.

Manifestos estes sentimentos, urge a ação. A ação é o melhor antibiótico para combater a bactéria do medo e o peso de uma consciência culpada. A nossa vida é moldada por aquilo que nós desejamos mais e pelo que temos mais medo. Assim, como disse Baruch Espinosa, “um homem livre é aquele que vive sob a orientação da razão, que não é guiado pelo medo, mas que deseja diretamente aquilo que é bom”.

O foco na tarefa no ‘aqui e agora’, é uma excelente terapia para afastar a mente de possíveis obstáculos e medos de acontecimentos passados e/ou futuros! Se o foco for rever/corrigir ou planear, respetivamente, terá o mesmo valor terapêutico, mas vivamos o momento com entrega e disponibilidade total. Repetindo o adágio, já citado, “a coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de avançar, apesar do medo”.

A resiliência com fé num ser maior (P/ex. Deus), independentemente da crença… “o que tiver de ser, será!”. A esperança e a fé, são fundamentais em todo o processo de sublimação e atenuação do sofrimento e angústia. Basta escolher o caminho certo para cada um, em consciência e passar de um sentimento aparentemente inevitável para encontrar a forma de o(s) evitar.

Carlos Silva, Maestro da Banda de Freamunde

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