A solidariedade nas mãos de quem a sabe fazer

A diminuição drástica da oferta de emprego que resultará da crise do COVID 19 atingirá, progressivamente, números avassaladores e remeterá milhares de cidadãos para o estatuto de excedentários. Desde logo, para além das dificuldades quotidianas que daí resultarão para quem sofrerá o desemprego, há o perigo de uma  destruição dos laços sociais dessas mesmas pessoas com as instituições e com a sociedade em geral, caso o desemprego perdure no tempo.

O desemprego conduz, muito frequentemente, mais tarde ou mais cedo, à impossibilidade de se aceder a padrões de consumo fundamentais para a sobrevivência mas também para cada um garantir a sua dignidade.

Neste cenário a abordagem não pode ser, no seu essencial, “ensinar a pescar”, pois as pessoas não desaprenderam repentinamente, mas foram consideradas dispensáveis pela falta de procura, pela impossibilidade desta e porque os circuitos normais da economia foram suspensos. Assim, a abordagem terá que ser, especialmente, “dar o peixe”.

O “dar o peixe” implica duas dimensões de intervenção. A estatal por intermédio de políticas sociais, estas da responsabilidade dos governos, e a mobilização da sociedade e de organizações do terceiro setor de onde se destacarão as IPSS`s.

Esta última dimensão não pode, não deve, ficar nas mãos de movimentos inorgânicos, sob pena deste tipo de solidariedade ser mais exclusora do que inclusiva, mais ineficaz do que eficaz.

Este tipo de solidariedade, que se exige, não é ação para bons espíritos, bem intencionados que até muitas das vezes tentam salvar na procura de se salvarem a si próprios expiando culpas e sentimentos de frustração pessoal ou vendo nestes atos oportunidades de alimentarem as suas “falhas narcisicas”, mas deve estar nas mãos de quem tem saber, tradição e saber-fazer neste domínio. Estes movimentos locais e parcelares, ainda que não profundamente nefastos, funcionam na base da emoção, têm efeitos aleatórios e tendem a desaparecer no curto espaço de tempo para além de que facilmente exigem do assistido a prova humilhante de que este é merecedor de tais ajudas ou, pelo contrário tendem a ver  em cada um uma vitima sem capacidade de autodeterminação, estabelecendo critérios pessoais e moralistas para o fornecimento dessa ajuda, não percebendo coisas tão simples como o facto de sociologicamente haver vários tipos de desinseridos e de assistidos bem como diferentes mecanismos psicossociais de adaptação a situações de carência. E se esta questão se coloca até nas instituições do terceiro setor que prestam este apoio, com alguns dos seus profissionais a desdenharem de quem solicita apoio (não percebendo que frequentemente esse é um mecanismo psicológico para se distanciarem dessas situações por medo deles próprios as vivenciarem), a elaborarem critérios imprecisos e acientíficos de que depende essa ajuda, então imaginemos o que acontece quando esse apoio é realizado por não profissionais mesmo que animados por boas intenções.

A solidariedade depende, por definição da “boa vontade” das comunidades mas não tem que ser gerida  de forma individual e sem o necessário rigor técnico.

Deixemos a solidariedade para quem a sabe gerir, ou seja para o poder local e para as instituições com profissionais de intervenção social com saber e tradição neste domínio e organizadas em rede desde há muito tempo.

Uma vez incorporada uma imagem desvalorizada acerca de si próprios, em boa parte causada pelo estigma que a sociedade imprime, os indivíduos que vivenciam situações de desemprego encaram-nas, frequentemente, como um fracasso pessoal e, mais grave ainda, não raras vezes, assumem a responsabilidade por se encontrarem nessa situação. Emergem, então, sentimentos de vergonha, inferioridade, culpa e, até mesmo, de humilhação, logo estes necessitam de ser tratados com ética, dignidade sem deixarmos de parte o rigor, sob pena de transformarmos uma pessoa desempregada num assistido de carreira.

Marcos Taipa Ribeiro

 

 

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