Os tempos estranhos que se entranham

Face ao infortúnio que esta pandemia do COVID – 19 a todos atingiu, sem exceção, assisto em silêncio e com suficiente inquietude, às mais variadas manifestações de estados de alma, quer sob a forma de testemunhos pessoais, profissionais, relatos televisivos, artigos de opinião/artigos dos mais variados especialistas e nas mais diversas matérias da saúde às políticas socio económicas.

Se por um lado, podem ser consideradas benéficas por serem o reflexo do respeito pela liberdade de opinião, tão aclamada em sociedades democráticas, por outro lado temo, que a verdadeira e imprescindível mensagem, não chegue a todos os cidadãos numa sociedade que se quer justa.

Até que ponto, enquanto se dissemina o turbilhão de análise de opiniões, estamos atentos à verdadeira circunstância pessoal de cada um?! 

Será que este tempo, não estará a favorecer a solitude, infetando os mais vulneráveis da nossa sociedade?

É esta vulnerabilidade silenciosa que me preocupa!

Este silêncio, o qual deveria ser um caminho de esperança e de fortalecimento para crises futuras, não estará a ser desaproveitado?!

Sim, porque esta não é a primeira, nem será, a última das crises nas nossas vidas.

Todos relembramos, num passado ainda muito recente, o emergir da última crise económico – financeira, e quais as reflexões à data e seus impactos nos dias de hoje.

Os vulneráveis de então, são porventura os mesmos de hoje?!

Os vulneráveis de então, saíram fortalecidos da última crise?!

Nesta crise sanitária sem precedentes, urge, por isso «alguém» que olhe o outro com esperança.

Sim, com esperança!

Na similitude a um investimento, que nós sociedade civil fazemos no outro enquanto pessoa, e não na solidariedade terapêutica do mero alimentar e subsidiar.

Importa dignificar os vulneráveis e ensiná-los “a pescar”, neste mar agitado que é a vida.

Em contexto de pandemia, o Papa Francisco referiu que “estamos todo no mesmo barco”…

Em contexto pós Covid – 19, recomendaria que todos nós, sem exceção, façamos a nossa parte, de modo a construirmos uma sociedade cada vez mais inclusiva.

Torna-se assim, imprescindível, o repensar de políticas públicas que sejam o garante de um futuro mais consistente, para os vulneráveis de ontem e de agora, para que os mesmos, sejam parte, do todo de uma sociedade justa.

Que ninguém, nesta “peregrinação” da vida, sinta a solitude, por isso, recuso, que os tempos estranhos que hoje vivemos, se entranhem, de modo a hipotecar a sociedade justa do amanhã e que utopicamente almejamos?!

Olga Gonçalves, Assessora Conselho Diretivo Infarmed, I.P, Lic. Direito, UCP, Programa de Alta Direção de Instituições de Saúde, PADIS, AESE, 2019, Especialização em Administração Pública, UMinho, Pós Graduada em Contratação Pública, UCP e FDUC

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