Uma Família do Alentejo

Estou a entermear com a leitura da História Global de Portugal, de que noutra altura falarei, o livro que inspirou Saramago a escrever Levantados do Chão. Trata-se de um livrinho autobiográfico de João Domingos Serra, de título Uma Família do Alentejo, onde o autor, trabalhador rural do Alto Alentejo, conta as desventuras da sua família. Livro prefaciado por José Saramago e editado pela fundação que inspirou e que tem o seu nome.
A baixa literacia do João Domingos traduz-se numa escrita de jacto, sem pontuação nem partições lógicas mas que se lê quase de um só fôlego. Não se pode dizer que o leitor, sendo português medianamente letrado e conhecedor da história e sociologia do país nos princípios do século XX, encontre aí grande matéria de surpresa ou descrição de factos totalmente desconhecidos.
A vida rural dos camponeses pobres e analfabetos do nosso país, na fase predominantemente rural do Portugal dos anos 20, 30 e seguintes, vida marcada pelo trabalho físico extenuante, da madrugada ao anoitecer, de todos os membros da família, é bem conhecida e tem sido descrita por numerosos historiadores, sociólogos e outros cientistas sociais.
Mas é raro a ela termos acesso na primeira pessoa, contada por quem a sofreu, sempre reconheceu a sua injustiça e teve de partilhar com mãe e irmãos dificuldades e desassossegos ainda maiores face ao alcoolismo do pai.
À miséria absoluta e à fome, juntava-se a canga do preconceito familiar que fazia os avós maternos cobrarem à mãe, a troco do magro apoio que lhes davam, a decisão de ter casado contra a sua vontade.
Também não era raro o alcoolismo em meio rural em situações como as que o livro descreve. Bem o conhecemos, de mais ou menos perto, bem como ao seu cortejo de sequelas que iam da violência doméstica sobre mulher e filhos, ao acumular de dívidas na loja e na farmácia, à ausência à escola dos mais novos e, muitas vezes, até à mendicidade – a féria era sempre gasta em primeiro lugar na taberna.
Mas talvez se tenha reflectido menos sobre o facto de o prevaricador, tido como a razão de todos os males, o pai alcoólico, constituir ele próprio uma vítima do sistema. Analfabeto ou quase, mesmo que artífice num meio rural, como este pai que era sapateiro remendão, sofria indirectamente os efeitos da exploração dos trabalhadores rurais, seus clientes, que ou não lhe podiam dar trabalho ou dificilmente lhe pagavam o que consertava.
Que perspectivas se lhe abriam? Aos trabalhadores rurais ainda restava a possibilidade de, havendo coragem, se unirem e reivindicarem do capataz um aumento do soldo ou que arranjasse mais braços de trabalho para repartirem entre si a carga bruta. Mas um trabalhador por conta própria, numa época em que os direitos e apoios sociais eram inexistentes, não tinha qualquer saída desse tipo.
Parece-me importante que reflictamos sobre este aspecto. Mesmo não nos encaminhando o autor para esta dimensão, dela não teria consciência, o realismo e a autenticidade da descrição não nos permitem que lhe passemos ao lado.
Margarida Chagas Lopes, Professora Aposentada do ISEG, investigadora do SOCIUS- Universidade de Lisboa e Membro do GES (Grupo Economia e Sociedade)

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