Um psicopata nas relações familiares

É frequente utilizarmos o conceito de psicopatia a propósito de tudo e de nada. Conotamo-lo muitas vezes com pessoas que não se inserem nos nossos valores ou nos nossos conceitos de vida. E ao fazê-lo estigmatizamos. Ora a psicopatia é uma doença do foro psiquiátrico que tem características próprias que todos devemos conhecer. Sem segregações e sem apontar o dedo, há que saber com o que estamos a lidar.
O texto que a seguir transcrevo, e que não é de minha autoria, dá-nos uma perceção clara sobre isso mesmo: o que é um psicopata.
“Segundo Robert Hare (2013), o s psicopatas vivem entre nós, no entanto a sociedade não os enxerga ou não deseja enxergá-los. Queremos acreditar que todos pensamos e sentimos da mesma maneira. Que somos bons e sociáveis. Que nos importamos uns com os outros. E que funcionamos conforme padrões similares de consciência moral, ética e honradez.
A verdade? É que somos da mesma espécie, porém muito diferentes. E o psicopata, através de sua surpreendente insensibilidade e total ausência de empatia, tem inúmeras formas de provocar danos irreversíveis nas pessoas para além dos delitos, que porventura possam cometer.
De acordo com os estudos de Vicente Garrido (2001; 2005), os psicopatas sentem-se superiores a todo mundo. A sua personalidade é marcadamente caracterizada pela megalomania, pelo hedonismo e pelo egocentrismo. No seu convívio social, são verdadeiros camaleões, apresentam uma imagem sedutora, cativante e confiante. Mas são pessoas perversas, maquiavélicas e narcisistas. São especialmente famosos pelo seu narcisismo maligno, caracterizado por uma excessiva necessidade de atenção e adoração, uma espécie extrema de culto ao ego. Destacam-se ainda pela escassez de emoções morais como o amor, a compaixão a culpa e o arrependimento. São frios, calculistas, mentirosos, parasitas, inescrupulosos, irresponsáveis e transgressores de regras morais e sociais.
Além disso, vale assinalar que os psicopatas possuem um déficit emocional, como se possuíssem uma afasia semântica, ou seja, eles conhecem a letra do texto, mas desconhecem a melodia que o envolve. Apresentam uma anomalia na capacidade de vivenciar e reconhecer a experiência emocional e, assim, se conectar a outras pessoas, estabelecendo relacionamentos reais e duradouros. Isso quer dizer que a deficiência deles está no campo das emoções, naquilo que nos vincula afetivamente com o outro ou com todas as coisas do universo. Em suma, são conscientes, mas não possuem consciência moral, portanto a dificuldade reside em compreender conceitos básicos, como bondade, comprometimento e lealdade. No entanto, não apresentam problema algum de ordem cognitiva ou deficiência de raciocínio; são cônscios do que é certo e errado e do que envolve o bem e o mal (GARRIDO, 2005).”
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“A RELAÇÃO AMOROSA COM UM PSICOPATA
Os textos que estou a publicar (e que não são de minha autoria) dirigem-se especialmente às mulheres. Os crimes, provenientes de relações mal sucedidas, não param de engrossar as estatísticas. Os perpetradores de tais violências são pessoas doentes e, muitos deles, enquadram-se na psicopatia. Cada mulher que se sente ameaçada, que leia os textos que publico, meditem sobre eles e peçam ajuda especializada. Não se deixem destruir nem acreditem que podem mudar um psicopata.
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“Etapas da relação e indicadores do psicopata integrado nas relações de casal
Eu semeei os meus sonhos
onde você está pisando agora;
pise suavemente
porque você está pisando
nos meus sonhos.

W. B. Yeats
Segundo Brown (2018), no início do relacionamento, os psicopatas são muito envolventes, simpáticos, expansivos, persistentes e excepcionalmente charmosos. Nesse sentido, as mulheres que tiveram ou têm uma relação amorosa com psicopatas descrevem a união inicial como eletrizante, uma conexão instantânea, almas gêmeas, sexo extraordinário, fascinação e intensa vinculação. Para melhor compreender esse processo de enamoramento, iremos discorrer as etapas da relação calcados nos estudos de dois pesquisadores.
• Iñaki Piñuel (2016), que aponta: encantamento/adrenalina, isolamento/cativeiro emocional, vampirismo, destruição/anemia psíquica, afastamento/contato zero.
• Vicente Garrido (2001), que indica: t entativas de controle e isolamento, agressividade manifesta e velada, desprezo e humilhação, manipulação, negação dos erros e culpabilização externa, fachada externa de boa aparência.
Inicialmente imperam a paixão, o romance e a atração sexual, ou seja, é nessa fase de bombardeio amoroso que reina o encantamento. A intoxicação química da paixão (feniletilamina, anfetamina, oxitocina, dopamina) evoca um magnetismo emocional e sexual arrebatador, em que o sexo é utilizado como instrumento de poder e controle.
Nessa fase, a mulher confunde a perseguição intensa do psicopata com intimidade, passando rapidamente da atração para o apego e do apego para o vínculo afetivo, mas desconhece que o seu amante psicopata não forma vínculo porque isso exigiria o espectro completo de emoções. Infelizmente ele apenas consegue se apegar como nós nos apegamos aos objetos que possuímos enquanto eles nos interessam.
Posteriormente surgem as tentativas de controle e isolamento em relação aos amigos, à família e ao trabalho. Dessa forma, o psicopata cria e estabelece os laços de dependência e necessidade, que favorecem o controle das decisões e ações de sua parceira. As agressividades se mesclam em formas manifestas e sutis. Mentem, enganam e manipulam com avidez. Devido à carência de sentimento de culpa ou pesar, jamais se desculpam por nada, inclusive sempre que são descobertos em suas tramoias, invertem o jogo se vitimizando, estimulando a piedade e culpabilizando a companheira. Jogam com a teatralidade e a simulação, e sugerem a existência de uma triangulação, ou seja, uma infidelidade anunciada e negada para desestabilizar emocionalmente sua parceira. Ela deve saber que ele é cobiçado por outras mulheres e que a qualquer momento poderá ir embora (PIÑUEL, 2016).
No entanto, a essas alturas do relacionamento, a mulher já está completamente adicta ao psicopata e fará de tudo para não ser descartada, mesmo que isso implique perder a própria dignidade. Está exausta emocionalmente e desenergizada fisicamente, pois existem dois relacionamentos acontecendo ao mesmo tempo (o ser encantador de outrora e o ogro assustador do presente). Sua adaptação aos dois lados do psicopata cria uma dissonância cognitiva, que consiste em sensações de desconforto resultantes de duas crenças contraditórias.
Atrelada à dissonância cognitiva, existe claramente a perda da autonomia traduzida na capacidade de autodeterminação para pensar, querer, sentir e agir. Além disso, o psicopata é um exímio gaslighter , ou seja, um experto na manipulação de informações com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade mental. Portanto, através do fenômeno gaslighting , ele estará no controle da realidade de sua companheira (SARKIS, 2019).
Saindo de cena e se reconstruindo
Faz-se mister ressaltar que, geralmente, quando o vínculo afetivo se rompe, é porque o psicopata deixou de ter interesse em sua companheira, ou seja, após longo tempo de exploração parasitária envolvendo sedução, subjugação e controle, ele irá descartá-la para ingressar em outra relação com zero de culpa, remorso ou amor.
Dito isso, queremos assinalar que, mesmo quando a mulher descobre que tudo que o psicopata contou sobre si mesmo e suas crenças eram mentiras, que ele não a amou, mas satisfez suas necessidades pervertidas dominando-a psicologicamente, ela ainda tentará entender onde errou e averiguará o que pode fazer para tê-lo de volta. Quando a relação acaba, ela não perde só a relação: perde parte de sua identidade, ela já não lembra mais a mulher que era antes ( Piñuel, 2016).
No final do relacionamento, como pontua Lins (2017), brotam intensos e variados sentimentos que se revezam entre incredulidade, negação, impotência, tristeza e raiva. Além disso, ressalta que

[…] cada experiência de perda não é única; somam-se a ela outras de mesma natureza em fases anteriores da vida e que são reeditadas de forma inconsciente (LINS, 2017, p. 124).

Nesse aspecto, o apoio dos familiares, dos amigos e de profissionais é de suma importância para o desenlace. Isso porque a mulher apresentará danos inevitáveis como sentimento de autoculpabilidade, baixa autoestima, sentimentos antagônicos e possíveis sintomas dos transtornos de estresse pós-traumático, depressão, toxicomania, distúrbios do sono e da alimentação, entre outros.
Na saída de cena, é de vital relevância que a mulher se agarre às memórias de traição e abuso para possibilitar sua recuperação, porque o transe hipnótico ao qual esteve submetida durante tanto tempo, a faz conservar as lembranças de quando estiveram intensamente conectados. Isso fatalmente a fará voltar a acreditar em suas promessas de mudanças de hábitos. Mas a verdade é que o psicopata jamais reconhecerá seus erros e, se por acaso pedir desculpas e fizer juras de amor, é unicamente porque sente falta de dominá-la e controlá-la novamente.
De acordo com Trindade (2009), a ausência de sensibilidade e a indiferença aos sentimentos alheios são características presentes no psicopata. Ele sempre irá mascarar a realidade e inverter a verdade dos fatos em prejuízo alheio e benefício próprio. O parceiro psicopata desconhece o sentimento de solidariedade e empatia, tampouco incorpora o significado emocional de uma experiência vivenciada. Por isso, à guisa de prevenção, é bom ter em mente que o passado do psicopata é seu futuro.
Nesse sentido, como eles não apreendem com a experiência, a recomendação é afastamento e contato zero . Isso porque uma pessoa que não sente culpa, nem vergonha, nem contrição por suas ações está livre dos cabrestos morais que a fariam se desculpar e não voltar mais a cometer as mesmas condutas errôneas. Por isso, mesmo que o sofrimento seja intenso e se assemelhe a uma síndrome de abstinência, deve-se evitar qualquer contato, pois a mínima aproximação fará o metrônomo voltar a iniciar tudo outra vez (PIÑUEL, 2016).
Tecendo os últimos comentários sobre a psicopatia
Lamentavelmente, não podemos compreender com empatia a mente de um psicopata nem perscrutar suas expressões emocionais com nosso coração, tampouco estamos imunes aos encantos da paixão e às ciladas da conquista, portanto ainda somos presas fáceis de um predador voraz de almas afetuosas.
A bem da verdade, a ciência ainda se inquieta e se debruça nos estudos sobre a existência de seres humanos que por razões diversas não completam o processo de inserção na civilização, ou seja, são humanos mais não humanizáveis. Os psicopatas sofrem um déficit na integração do mundo emocional com a razão e a conduta. Portanto, tratar de um psicopata é uma luta inglória, pois não há como mudar sua maneira de ser, ver e sentir o mundo.
Por mais bizarro que possa parecer, os psicopatas parecem estar inteiramente satisfeitos consigo mesmos. Infelizmente, a destruição que eles deixam atrás de si é algo inenarrável e indescritível, pois de todos os homines sapiens o psicopata sabe ser a espécie mais mortífera nos anais da humanidade.
Referências
BROWN, S. Mulheres que amam psicopatas: como identificar homens com distúrbios de personalidade e se livrar de um relacionamento abusivo. São Paulo: Cultrix, 2018. [ Links ]
FAUR, P. Amores que matam. Porto Alegre: L&MPocket, 2012. [ Links ]
GARRIDO-GENOVES, V. Amores que matan: acoso y violencia contra las mujeres. España: Algar, 2001. [ Links ]
GARRIDO-GENOVES, V. El psicópata: un camaleón en la sociedad actual. España: Algar, 2005. [ Links ]
HARE, R. D. Sem consciência: o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós. Porto Alegre: Artmed, 2013. [ Links ]
LINS, R. N. Novas formas de amar. São Paulo: Planeta do Brasil, 2017. [ Links ]
MARIETÁN, H. El complementario y su psicópata. Buenos Aires: Ananke, 2008. [ Links ]
MARIETÁN, H. El complementario y su psicópata. Revista Alcmeon, Buenos Aires, v. 9, n. 3, 2000. [ Links ]
MARIETÁN, H. Mujeres ancladas en psicópatas. Buenos Aires: Ananke, 2011. [ Links ]
MARIETÁN, H. Tipos de relación del psicópata. Revista Alcmeon, Buenos Aires, n. 47, 2005. [ Links ]
PIÑUEL, I. Amor Zero: cómo sobrevivir a los amores con psicópatas. Madrid: La esfera de los Libros, 2016. [ Links ]
STERNBERG, R. J. El triángulo del amor: intimidad, pasión y compromiso. Barcelona: Paidós, 1989. [ Links ]
TRINDADE, J. (Org.). Psicopatia – a máscara da justiça. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. [ Links ]
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Trabalho/reflexão de Lídia Soares

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