A arte delicada de saber envelhecer

“A arte de envelhecer consiste em encontrar o prazer que todas as idades proporcionam, pois, todas elas, têm as suas virtudes pese embora o enfraquecimento do corpo e a inevitável aproximação do seu fim.” Cícero (Marco Túlio) cônsul romano 63.a.c.
Saber envelhecer é uma arte. Mas como podemos desenvolvê-la em sociedades que segregam e estigmatizam e que desvalorizam tudo o que não dá lucro? Sociedades em que o velho se tornou uma mercadoria sobrante que se tem que arrumar em qualquer lado?
Se por um lado a longevidade é um indicador de desenvolvimento, por outro, tornou-se um espetro para as economias dos países ditos desenvolvidos. Tal como as sociedades de consumo se agarram aos estereótipos do glamour, também as economias se sentem incomodadas com o peso, cada vez maior, da população idosa para elas improdutiva e despesista.
Todavia não se chega a este estado de coisas de repente. Criaram-se ao longo das últimas décadas condições que conduzem a uma espécie de beco sem saída. Não se preparam as pessoas para desfrutar da vida em todas as suas etapas interiorizando nelas que, em cada uma dessas etapas, podem encontrar estímulos aliciantes que lhes permitirão vivê-las em plenitude.
Mas, lamentavelmente, é com o inverso a esses estímulos que estamos a lidar num País em que existem 153 idosos para cada 110 jovens. Um rácio que nos coloca no 3º. lugar da UE apenas antecedido pela Itália e Alemanha (PORDATA 20.10.2019).
A população idosa vive cada vez mais isolada e sozinha. Sente-se cada vez mais abandonada no mundo das tecnologias, da velocidade e do glamour. Perdem-se capacidades. Perdem-se laços. Perdem-se competências. Perde-se poder e importância.
Daí à depressão é apenas um passo. E não é por acaso que a taxa de suicídios é duas vezes maior entre a população mais velha na qual, segundo a Associação Portuguesa de Gerontopsiquiatria, pelo menos 10% sofre de depressão. Depressões que não foram a tempo detetadas, que foram sub-avaliadas e sub-tratadas.
Conviver e socializar é fundamental para a prevenção de diversos problemas das pessoas idosas e para a promoção de um envelhecimento saudável”, assegura Sandra Neves, psiquiatra da UPPC – Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra, num artigo de opinião divulgado online.
“Infelizmente, diz Sandra Neves, o problema da solidão não nos é alheio, sobretudo nas grandes cidades, onde apesar de existirem tantas pessoas, é possível viver e morrer completamente só. É indispensável pensarmos na integração em grupos de suporte para pessoas isoladas, viúvas, pessoas idosas com deficiência motora, cognitiva ou outra e, em certos casos, procurar o aconselhamento de profissionais de saúde mental, serviço social ou terapeutas ocupacionais”, defende Sandra Neves.
Com efeito, a perda de capacidades funcionais associada ao processo de envelhecimento, e o consequente aumento dos níveis de dependência, é problemático no atual contexto social em que se alteraram as formas tradicionais de convivência e de solidariedade intrafamiliar. Neste sentido, é expectável um aumento progressivo da procura de cuidados formais por parte da população idosa.
Mas como fazê-lo? Onde estão os apoios necessários a enquadrar cuidadores (muitos deles informais e por necessidade) a quem é exigido um know how que nunca lhes foi dado?
Como podemos pedir a famílias que vivem em subúrbios e em habitações sobrelotadas que deem as condições mínimas de conforto aos seus ascendentes?
Como podemos esperar que os filhos, ou familiares próximos, disponibilizem um tempo que não têm absorvidos que estão pelos longos tempos de deslocação entre casa-emprego?
Como podem fazer face a mais encargos pessoas que vivem de empregos precários e mal remunerados?
Que respostas temos para tudo isto?
Vivemos, mas será que saberemos viver?
Como lidamos com cada fase da vida?
Será que saberemos envelhecer?
Será que saberemos lidar com o nosso envelhecimento e com o envelhecimento dos outros?
Diz-nos Hermann Melville que «saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e um dos capítulos mais difíceis da arte de viver» porque só quem sabe envelhecer é que sabe viver.
De facto, não se pode deixar de concordar com Hermann Melville. Porém, a questão que se coloca é: que futuro queremos dar ao envelhecimento? Que condições estão criadas para que exista um mundo mais digno e se possa superar a estagnação?
Lídia Soares, redactora no Grupo Privado Sociedade Justa

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