A vida depois da pandemia, novo livro do Papa Francisco

'A vida depois da pandemia' reúne 8 textos de Francisco e tem prefácio do cardeal Michael Czerny, SJ

‘A vida depois da pandemia’ reúne 8 textos de Francisco e tem prefácio do cardeal Michael Czerny
No meio do turbilhão de emoções que vivemos no momento, atribulados entre as demandas laborais e domésticas, muitos envolvidos com entes queridos enfermos, outros ainda disputando diariamente o sustento da família, talvez tenha passado desapercebido o recente anuncio profético de papa Francisco, nestes tempos de pandemia.

Neste maio de 2020, Francisco apresenta-nos La vida después de la pandemia(2020), uma coletãnea de oito textos que apontam algumas direções para reconstruirmos um mundo melhor e, ao mesmo tempo, ofertam sementes de esperança que podem ser plantadas, cuidadas e colhidas futuramente. Ao longo destes textos apresenta-se uma linha comum: o combate ao vírus do egoísmo indiferente e a certeza de que não há futuro se destruirmos o ambiente que nos sustenta.

Com este gesto, reflexões e palavras, o pontífice, uma vez mais, coloca-se como mensageiro da esperança numa sociedade desiludida, torna-se, uma vez mais, líder que cuida, ilumina e acolhe todos e todas, para católicos e para não católicos.

Eliminar a injustiça

Ao longo de Urbi et orbi o papaexige ânimo e honestidade daqueles que detêm o poder, que tomam as decisões, exige coragem de olhar para traz e assumir que deixamos muitas pessoas pelo caminho, na esteira do desenvolvimento. Ele pede audácia solidária e afirma que é chegada a hora de pensarmos com objectividade as actividades económicas na nossa sociedade, indicando que desejar voltar rapidamente ao que vivíamos antes da pandemia pode ser o mais cómodo e prático, mas não é a melhor opção.

Afirma o papa que é hora de desafiar e transformar as indústrias actuais, reconhecer o trabalho informal e reforçar o trabalho sanitário. Esta deve ser a agenda pública numa primeira etapa de reconstrução. É tempo de eliminar as desigualdades e reparar a injustiça que mina saúde de toda a humanidade.

Porque tens medo?

No texto subsequente Francisco pergunta: Porque tens medo? Percebendo que a humanidade esta assustada e perdida, como os discípulos do Evangélico quando tomados por uma tormenta inesperada e furiosa, ele deflagra que nosso desespero maior têm raiz na percepção, frente a pandemia, de que somos vulneráveis. O Covid-19 desmascara as seguridades superficiais que construímos, desmorona verticalmente a omnipotência do ser humano.

Porque tens medo? Não tens fé? Francisco inverte assim, a narrativa do medo e convoca o despertar da solidariedade e da esperança. Para isso, mostra-se necessário inicialmente “abraçar a Cruz”, acolher as contradições de nosso tempo, pausar o julgamento discriminado e preconceituoso sobre nós mesmos e sobre os outros, dando espaço para a reconciliação e para a criatividade.

O que vem depois

Com esta perceptiva se insere o texto seguinte titulado Nos preparar para o que vem depois. Nele, papa Francisco apresenta uma rápida percepção das respostas que diferentes países ofertam frente a pandemia. Saúda aqueles governantes que explicitamente colocaram o cuidado das pessoas e a preservação de suas vidas a frente dos interesses económicos. Uma atitude difícil, visto a forma como os países colocam-se em dependência com o mercado, segundo ele.

Além de reconhecer essas iniciativas, Francisco avisa que já se percebem algumas das principais consequências que deveremos enfrentar, como a fome, o desemprego e a violência.

Chama da reconstrução

Neste contexto de reconstrução chega a Páscoa e o Papa escreve Como uma nova chama, retomando a esperança e a coragem de Jesus e lembrando assim, de todos os profissionais de saúde que colocam em risco suas vidas para cuidar da vida do próximo. Um testemunho de cuidado e amor que, por vezes, chega até a extenuação de suas forças, assim como Jesus na cruz.

Como uma chama que renasce, o papa lembra de como a Europa foi capaz de se reconstruir após a segunda guerra mundial, consolidando um bloco continental solidário. Percebe que hoje a União Europeia encontra-se frente a um desafio histórico, do qual dependerá não apenas o seu futuro, mas o de toda a humanidade.

Uma vez mais o papa defende o diálogo com os tomadores de decisões do mundo e insiste que não é hora de disputas e guerras, não é hora de fabricação e venda de armas, é hora de união para salvar pessoas, é hora de acabar com a sangrenta guerra da Síria, os conflitos no Iêmen e as tensões no Iraque, assim como no Líbano. A prosperidade de um futuro novo, ressuscitado, de paz e solidariedade, depende diretamente dessas resoluções. Queremos suprimir para sempre as palavras egoísmo, indiferença e divisão, afirma o pontífice.

 Poetas sociais

Pensando nessa transformação, na extinção do egoísmo e na ressurreição da solidariedade, Francisco convoca a atenção aos invisíveis que operacionalizam a solidariedade e a paz em cada recanto do planeta, dialogando com os Movimentos Sociais e as organizações da sociedade civil escrevendo A um exército de invisíveis.

Francisco chama estas pessoas de poetas sociais, que desde de as periferias esquecidas criam alternativas amorosas e solidárias para as dificuldades mais atenuantes. No texto, o papa lembra também dos migrantes, refugiados e moradores de rua que enfrentam profundas dificuldades no contexto de pandemia e encontram na solidariedade do próximo a oportunidade de salvação.

Ressurreição

Em seguida, escrevendo Um plano para ressuscitar, profeticamente Francisco retoma o papel corajoso e esperançoso das mulheres ao longo de todo o Evangelho e lembra de como elas combatem a ansiedade e a destemperança, chamando a atenção para as vivências, desafios e saberes das mulheres do nosso tempo. É explicita a indicação de ouvir as mulheres, neste plano papal de ressuscitar a sociedade após a pandemia.

Tratando das mulheres e retomando a coragem e o amor dos profissionais de saúde em tempos de pandemia ele afirma: “Se aprendemos algo neste tempo é que ninguém se salva sozinho! ” (p.35).

Egoísmo

Dessa afirmação sugere o texto O Egoísmo: um vírus anda pior. O egoísmo indiferente é um vírus que se transmite ao pensarmos que a vida vai melhorar se a minha vida melhorar, que tudo está bem se eu e os meus estão bem. Devemos desenvolver a capacidade de pensar no outro, no próximo, na Terra e no todo, caso contrário seguirmos contaminados e contaminando.

Neste exercício de altruísmo que Francisco escreve aos vendedores de jornais que trabalham na rua, como um estudo de caso, um exemplo, um código para falar de todos os trabalhadores informais, os descartados, os que moram na rua, os gravemente marginalizados, o papa busca esperança-los também.

Pela Casa Comum

E então, no 50º Dia da Terra consolida-se a oportunidade em renovar o nosso compromisso com a Criação e com a Casa Comum, acolher os membros mais frágeis dessa família planetária e promover uma refundação do status humano frente a própria humanidade e aos outros seres que compartilham connosco o planeta. Para isto, em, Superar os desafios globais, Francisco evoca os saberes ancestrais das comunidades indígenas e de outros povos tradicionais, demonstrando como devemos aprender com eles a arte da contemplação como caminho para amar a terra e criarmos um possível bem-viver.

As reflexões, diálogos e textos trazidos a luz nesta compilação sobre a Vida após a pandemia impressionam pela coerência com que o Papa Francisco posiciona seu discurso no contexto global e realmente, como afirma ser seu intuito inicial, chama a todos e todas com uma semente de esperança e um convite para plantar.

A mensagem final é uníssona: Uma emergência como a do Covid-19 é derrotada, em primeiro lugar, com os anticorpos da solidariedade.

LA VIDA DESPUÉS DE LA PANDEMIA
Papa Francisco
Libreria Editrice Vaticana
65 páginas

 

Deixe uma resposta

*